A vida moderna fez com que boa parte dos avós viva a experiência de cuidar dos netos enquanto os pais trabalham. A tarefa, embora tenha a concordância dos avós, acaba se transformando em um fardo pesado demais para os idosos, que precisam superar os seus limites para dar conta das necessidades de uma criança, além de terem que assumir o duro papel de educá-la.

Para a psicóloga Geraldina Witter, que integra o Grupo de Psicologia do Idoso em Mogi das Cruzes, o tema é complexo, pois de um lado existe o interesse dos avós em ajudar os familiares que trabalham fora e não têm com quem deixar a criança, mas de outro esbarra na falta de condições físicas e emocionais do idoso em atender todas as demandas que o neto requer, gerando uma sobrecarga.

“São contingências que a vida moderna, com todo o seu corre-corre e atribulações, impôs à sociedade atual. No passado, os avós não tinham esta atribuição. Isso mudou. Atualmente, a grande maioria precisa cuidar dos netos para evitar um mal maior, mesmo que à custa do seu sacrifício”.

Geraldina destaca que o vínculo entre avós e netos deve existir, pois isso é salutar para ambas as gerações, mas esta relação ganhou uma dimensão mais ampla, causando alguns pontos de atrito. “Os avós assumiram o papel de educar os netos, quando esta tarefa é obrigação principal dos pais. Estes, por sua vez, muitas vezes não aprovam os métodos usados pelos avós”.

Segundo a especialista, este embate em relação à melhor forma de criação só acontece porque não existe na nossa sociedade a cultura de se definir qual o tipo de educação e de valores que queremos ensinar aos nossos filhos. Ela afirma que o mais comum entre as famílias é a educação acontecer ao acaso, sem qualquer parâmetro e preparo para um tema tão importante. Sem esta definição, explica a psicóloga, tanto os pais quanto os avós ficam sem uma direção.

Cobranças
Outro problema que fatalmente acaba ocorrendo é a cobrança pelo excesso de permissividade dos avós, que não sabem dizer não aos caprichos dos netos. “Os avós, para tentar compensar a ausência dos pais, não querem contrariar as crianças. E sem definir limites para elas, a situação dentro da casa tende a se complicar”.

Em pesquisas e relatos obtidos com os idosos que vivenciam esta situação, Geraldina conta que os avós revelam que fazem o máximo que podem para atender às expectativas e necessidades tanto dos netos quanto dos filhos, porém, chega uma hora que o fôlego acaba. Na sua opinião, a solução seria a criação de um programa de ajuda para estas famílias. “Existe a consciência deste tipo de conflito nas famílias, mas faltam iniciativas concretas para solucioná-lo”.

Enquanto isso, a psicóloga recomenda o bom senso dos filhos em compreender os limites dos pais idosos e não exigir além do que eles podem dar. “As variáveis que envolvem esta situação são estressantes e podem prejudicar a convivência e o relacionamento entre todos os membros da família. É um problema sério que precisa de um trabalho de base, de diálogo e de entendimento”.

Publicado por: Mogi News
Em: 26/03/2011
Por: Maria Regina Almeida