Três dos quatro bebês que faleceram na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal da Santa Casa de Misericórdia de Suzano no último final de semana apresentaram quadro de infecção generalizada (sepse), segundo informações oficiais divulgadas ontem. Só agora em maio, outros três recém-nascidos morreram no setor, totalizando sete óbitos em 20 dias, enquanto que a média, até então, era de duas mortes por mês. Ainda assim, a direção do hospital e a Secretaria Municipal de Saúde voltaram a descartar um possível quadro de infecção hospitalar e classificaram as ocorrências como uma “fatalidade”. No entanto, os gestores adiantaram que as investigações internas sobre esse aumento nas estatísticas vão prosseguir até porque, mesmo com os indicativos de que as mortes ocorreram por causas inevitáveis, eles não se conformam com os fatos.

“Não consigo imaginar que a gente, do nada, saiu de dois para quatro óbitos. Nós vamos investigar”, ressaltou o interventor da Santa Casa, Marco Antonio Grandini Izzo ao citar os óbitos ocorridos entre a noite de sábado e o início da manhã de domingo e antes até de informar que outros três bebês também morreram neste mês na UTI, sendo dois na semana passada.

“Temos que investigar modo de trabalho, organização do serviço e como as pessoas se relacionam porque não é possível. Internamente, precisamos fazer uma apuração. A UTI é 24 horas, mas será que quem está de manhã trabalha igual ao que trabalha de noite? O que trabalha durante a semana é igual o do final de semana? Esse é um processo de qualidade de trabalho da Santa Casa. Não consigo enxergar que nós vamos ter que sucumbir só com os inevitáveis”, completou o gestor, com a concordância de Célia Bortoletto, secretária municipal de Saúde.

Apesar de pelo menos três dos quatros bebês que faleceram num intervalo de apenas 13 horas no último final de semana apresentarem quadro de choque séptico – o que é considerado um dos principais indicativos de uma provável infecção hospitalar – o interventor da Santa Casa e a secretária de Saúde descartaram efetivamente essa possibilidade. Com exceção de um bebê, que nasceu anencéfalo (sem cérebro), as causas que levaram a morte de outros dois recém-nascidos na UTI não foram reveladas.

“Infecção hospitalar é ambiental. Essa infecção que estamos falando é do bebê. Não foi do ambiente que eles pegaram”, afirmou Célia Bortoletto, ao descartar que esse tipo de infecção que acometeu as crianças possa se transmitir de uma para outra. “Não esse tipo de bicho. Nada a ver”, continuou. “As infecções neonatais não são de infecção hospitalar. São infecções produzidas pelo bebê ao longo da gestação ou durante o trabalho de parto. Infecção neonatal não é igual infecção hospitalar”, completou o interventor da Santa Casa.

Os gestores afastam o quadro de infecção hospitalar com base no resultado dos exames de hemoculturas, que deu negativo. Segundo eles, as bactérias que contaminaram os bebês são diferentes. Mas apesar da solicitação da reportagem de O Diário sobre quais eram as bactérias identificadas, a Santa Casa informou que não poderia disponibilizar esse dado.

“Como você constata infecção hospitalar? Você faz hemocultura e aquele bichinho que der positivo nela vai dar positivo em você. É o mesmo bichinho. As causas das infecções dessas crianças eram todas diferentes”, esclareceu Izzo.

Embora tenha sido dito anteriormente que a infecção hospitalar é ambiental, o interventor da Santa Casa reconheceu que um profissional, ao cuidar de uma criança com determinada infecção, se não fizer a assepsia correta, poderá contaminar o próximo bebê que for examinar e, assim, disseminar um quadro de contaminação.

“Esse é o principal fator de passagem por isso é que a lavagem de mãos é o que mais evita infecção hospitalar. Na verdade, o que aconteceu com a informação que vocês devem ter recebido (referência a notícia sobre a morte dos bebês divulgada por O Diário anteontem) é que eu senti tão grave a situação no sábado à noite que, no domingo de manhã, eu coloquei um segurança na porta da UTI Neonatal e ninguém entrava ali sem lavar as mãos na pia externa. Isso causou um frisson porque tem alguns profissionais que não gostam de lavar as mãos mesmo, então, ele não entrava lá sem lavar as mãos com todos os produtos que tínhamos lá e que são adequados”, explicou Izzo.

Ainda com a afastamento da possibilidade de infecção hospitalar, o interventor da Santa Casa informou que algumas medidas preventivas adotadas nos últimos dias serão mantidas em relação à UTI Neonatal. Entre elas, a garantia de ocupação limitada aos oito leitos disponíveis hoje no setor – cinco credenciados pelo Ministério da Saúde e mais três reservas -, o que implica na transferência de gestantes de alto risco para outras unidades de saúde da Região, ainda que elas sejam oriundas de Suzano; e a mudança no fluxo de materiais.

“Antes, um auxiliar de enfermagem saia da UTI com o pedido e ia ao almoxarifado e a farmácia para entregar o pedido. Quando tudo estivesse pronto, ele saia de novo da UTI e ia buscar. Na medida emergencial, o que fizemos foi pegar um funcionário administrativo da Maternidade, recolhe o pedido na janelinha e o auxiliar não sai da UTI. Esse funcionário administrativo leva o pedido e a farmácia e o almoxarifado entregam na UTI. Portanto, nós não temos movimentação de entra e sai”, ressaltou Izzo.

Condições
Dos quatro óbitos ocorridos no final de semana, um deles era de uma gestante de Poá, que deu a luz na 36ª semana a bebês gêmeos e que apresentava infecção urinária e corrimento. O primeiro bebê nasceu de parto normal e passa bem. O segundo, no entanto, precisou nascer de uma cesariana feita às pressas e apresentou um quadro de falta de oxigênio, mas o choque séptico foi o que o levou a morte.

Um outro bebê nasceu de 33 semanas, sendo que a mãe teve a bolsa rompida 11 dias antes do parto, o que levou a perda de líquido amniótico e a proliferação de bactérias. Essa criança teve sepse.

O terceiro recém-nascido nasceu de 26 semanas, pesava 820 gramas e apresentou choque cerebral, prematuridade extrema, síndrome do desconforto respiratório e sepse.

O quarto bebê veio ao mundo com 25 semanas e pesava 920 gramas. Foi o único que não apresentou quadro de sepse e a sua morte foi relacionada a doença da membrana ealina, prematuridade extrema, infecção neonatal e hemorragia pulmonar.

Publicado por: O Diário de Mogi
Em: 21/05/2011
Por: Mara Flôres