Cesar de Oliveira

Em uma entrevista para a revista Trip, o escritor Bernardo Carvalho diz o seguinte: “O prazer é uma das coisas que mais incomoda os outros. As pessoas não gostam de ver os outros sentindo prazer . . . A liberdade dos outros incomoda quando você está preso”.Obviamente que há de ser pesado e relativizado, no entanto, a afirmação se enquadra perfeitamente bem para Amy Winehouse. Doente, ou não, ela pode ter levado estas sensações e sentimentos à máxima potência. E deu no que deu.

De que forma os jovens são influenciados por isso? O quanto o comportamento aparentemente destrutivo de Amy tem impacto na formação de adolescentes? Por acaso alguém sai de casa com as roupas e penteados iguais aos dela? E usa droga só porque a cantora vivia dopada? Pouco provável, mas enfim.

Andando em qualquer cidade do Alto Tietê, ou até mesmo em São Paulo, é mais fácil ver crianças e adolescentes coloridos do que vestidos todos de preto com os cabelos penteados e presos para cima, característicos de Amy. Estes jovens são muito mais influenciados por quem está mais próximo deles, como as chamadas bandas do rock colorido, como Restart, por exemplo. As loucuras de Amy parecem estar bem longe da realidade da maioria, que assiste a tudo pela imprensa e muitas vezes deveria achar o máximo uma menina como ela, com um talento incrível, cambaleando por aí. Mas nem por isso eles tentaram imitá-la, sabe-se lá por qual motivo.

Se usam algum tipo de droga, incluindo aí o álcool e o cigarro, é muito mais pelo fácil acesso que têm do que porque o ídolo do momento é um drogado ou dependente químico. Estar numa festa e, de repente, se ver diante de qualquer substância que não conhece pode ser a oportunidade para conhecer e passar a utilizar drogas – lembrando novamente que o álcool e o tabaco também são drogas. Muitas vezes, principalmente no caso destas duas últimas, na própria casa há oferta abundante, mas graças ao status social histórico não são motivos de preocupação dos pais, cujo beber ou fumar socialmente não tem influência alguma para os filhos. Ao menos é isso que eles acham.

No caso de Amy, o que fica claro pelas notícias é que ela realmente tinha problemas graves de saúde. Isso vai muito além da loucura de um jovem que quer viver a tríade sexo, drogas e rock and roll. Mas nem todo mundo é dependente químico, e realmente, muitos adolescentes usam substâncias que alteram o estado de consciência para se enquadrar em determinado grupo, ser mais aceito ou simplesmente tentar escapar da sua realidade. Aliás, estes são apenas três motivos que podem justificar o uso de drogas, mas a questão é muito mais complexa do que isso.

O que talvez seja possível de generalizar é o hedonismo que domina a personalidade nesta idade pré fase adulta. A busca pelo prazer, no sentido mais amplo possível, é o que move estes jovens, seja pela descoberta sexual, química ou trocando gibis, por exemplo. Nesta etapa da vida, cada um só quer saber de fazer aquilo que acha que gosta e lhe dá o prazer imediato. Nada pode esperar. Há um desespero pelo hoje e o agora, e o amanhã é exatamente isso: amanhã. Com isso, as consequências de atitudes e ações não são medidas e todos tendem a errar bastante, até encontrar um ponto de equilíbrio.

Atualmente os jovens têm exemplos de sobra para seguir, seja ídolos da música, da tevê, Internet ou pessoas mais próximas, como os familiares ou amigos. A busca por se enquadrar em algum grupo continua marcando estas gerações neste momento da vida, e vai continuar assim por um bom tempo. Hoje isso ocorre com roupas coloridas, óculos grandes e um comportamento que está bem longe do abuso de álcool e drogas. A maior lição que Amy pode ter deixado para os jovens de hoje é de como não se comportar, porque em pouco tempo ela conseguiu demonstrar o quanto a dependência química pode ser prejudicial para qualquer um. Entretanto, a grande questão é: na busca pelo prazer e por aquilo que os faça felizes, os jovens rejeitam qualquer exemplo, bom ou ruim, portanto, o que será que a trajetória de Amy vai ensinar para eles?

Cesar de Oliveira é jornalista e está sempre muito mais preocupado com as perguntas do que com as respostas.
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