Padre Vito em visita a padre Cármine em Mogi das Cruzes - Crédito: Delcimar Ferreira

Padre Vito em visita a padre Carmine em Mogi das Cruzes – Crédito: Delcimar Ferreira

Blog: O que motivou a sua vinda ao Brasil?

Padre Vito Miracapillo: Praticamente depois do Liceu decidi estudar no Seminário para a América Latina em Verona, onde fiz a teologia. E a convenção com o bispo era que a gente ficasse cinco anos na Diocese de Andria e depois viesse para o Brasil. Depois de quatro anos e meio praticamente, vim para cá passar uma temporada de três meses, de agosto a novembro de 1974. E voltei em 1975, aos 31 de outubro com o visto permanente.

 Padre Carmine Mosca: Ele estudou na mesma diocese que eu, Andria, mas nós não nos conhecíamos. Só vim conhecer ele durante uma viagem a Roma pela Jornada da Juventude, no ano 2000, quando visitei Andria e fui acolhido por padre Vito, que me contou toda sua história.

Blog: Quando o Sr. veio pela primeira vez em 1974, onde ficou?

Padre Vito: Na Diocese de Palmares, em Pernambuco porque tinha tido já uns contatos com o bispo local, sendo que havia outro padre de nossa diocese lá. Conheci o bispo de Palmares, dom Acácio Rodrigues Alves, na Itália e ele me convidou para ir na diocese dele.

 

Blog: Então o Sr. chegou a conhecer dom Helder Câmara?

Padre Vito: Sim, fomos amigos. E ele me defendeu também no processo de expulsão, me acompanhou e depois nos encontramos várias vezes na Itália

Blog: Quais suas atividades pastorais em Palmares?

Padre Vito: Era pároco em Ribeirão, uma cidade da Diocese de Palmares e era também coordenador de Pastoral Diocesano e representante do clero no Regional Nordeste.

Blog: Como foi este episódio que culminou na sua expulsão?

Padre Vito: Todo o município de Ribeirão pertencia praticamente a duas famílias de latifundiários e a uma cooperativa que agia por conta do governo. Porque tinha uma usina que faliu em 1964 e sendo que por dois anos não conseguia mais pagar os salários aos trabalhadores. Então, o governo militar estabeleceu que ao invés de pagar o que devia, fossem dadas as terras a quem tinha direito. Eram cerca de mil famílias. Sendo que as primeiras começaram a receber a terra, mas depois por conta da cooperativa que agia no território, ela deveria dar orientação técnica para trabalhar a terra por seis meses. E no começo o que o pequeno agricultor deveria dar a cooperativa era 10% da produção. Mas aconteceu que aos poucos esse retorno cresceu até 130%. Então, as famílias não conseguiam nem trabalhar a terra porque tudo o que era produzido era devolvido. Além do mais, quando cortavam a cana deixavam ela lá ficar às margens dos lotes, por uma a duas semanas, de maneira que a cana perdia peso e não pagava nem o que valia. Aos poucos, as famílias que tinham recebido a terra, sob pressão de capangas e bandidos, deixaram os lotes, sendo que não podiam nem comer mesmo tendo a terra e iam embora, às vezes, para outros estados, ou mesmo para o Sul. Na área tinham ficado, mais ou menos, umas 400 famílias.