Blog: Quando o Sr. deixou Ribeirão de certo modo, a sua presença trazia uma certa proteção para aquela comunidade. Como ficou a situação por lá?

Padre Vito Miracapillo: Quando eu fui expulso, toda a comunidade ficou de luto. Os latifundiários queriam fazer uma festa de carnaval (fora de época) pela minha expulsão, enquanto os camponeses fizeram saber ao prefeito que se houvesse carnaval alguém poderia não ver a luz do dia. Ameaçaram fazer revolta mesmo. Então, o prefeito falou com os latifundiários dizendo que não houvesse nenhuma manifestação contra mim e a favor deles. Também porque naquela missa do tumulto, os 60 que estavam do lado de fora foram cercados pelos camponeses que chegaram armados de facões. Se tivesse soltado um tiro lá na igreja, teria sido guerra naquele dia.

Blog: Mesmo sem a sua presença, a própria comunidade tomou conhecimento do papel dela e assumiu as responsabilidades?

Padre Vito: Uma base estava tomando consciência, abriu os olhos. Quando saiu a denúncia contra mim, os camponeses saíram pelo campo para pegar assinaturas em meu favor e enviar ao presidente da República dizendo que o subversivo na verdade eram os latifundiários que pisaram na vida do povo. Eles pensavam que o presidente Figueiredo reconheceria a verdade dos fatos. Quando viram que houve a minha condenação, perceberam o que era o Estado militar e a ligação entre governo e os latifundiários.

Não só fizeram luto nas casas e na igreja, mas o próprio Severino Cavalcante, fez saber pelos jornais que dobraria os votos por ter conseguido a minha expulsão. Mas por 18 anos ele ficou apagado politicamente. Não conseguiu mais se reeleger. Só depois disso é que ele conseguiu se eleger deputado federal, dizem que pela via da corrupção, até ser presidente do Congresso.

A igreja onde trabalhei era de estilo colonial mas depois de três anos desabou. Quando quiseram refazer, os latifundiários queriam contribuir, o bispo disse que não aceitava doações de latifundiários que tinham participado de minha expulsão porque padre Vito um dia voltando teria vergonha de celebrar nesta igreja. As pessoas se perguntavam o que teria acontecido. O (coronel) Viloque (conhecido como torturador da ditadura) sofreu uma paralisia depois de seis meses, o principal latifundiário da região sofreu um acidente de carro e morreu e a igreja desabou. Perguntaram que oração que eu tinha feito, se era praga de Deus. (risos). Eu não vejo por este lado. Aconteceram muitas coisas boas. O governo em 1981 teve que entregar as terras que ainda não tinha concedido desde 1964 e muitos e se tornaram agricultores e mudaram a rotina da região. Todo o trabalho de evangelização teve resultados.