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Padre Vito em visita de cortesia a Mogi das Cruzes - Crédito: Delcimar Ferreira

Padre Vito em visita de cortesia a Mogi das Cruzes – Crédito: Delcimar Ferreira

Delcimar Ferreira

Uma história de lutas e de vitórias é o que se pode aprender com a vida de padre Vito Miracapillo. Italiano nascido na região de Andria, no sul da Itália, o sacerdote que veio na década de 1970 ao Brasil, em pelo vigor da ditadura militar, sentiu na pele o poder da opressão. Acusado de subversivo por defender os direitos dos camponeses na cidade de Ribeirão (PE), foi expulso por ninguém menos que o então deputado estadual Severino Cavalcante, à época pertencente a Arena, partido de apoio ao regime, político que anos depois viria ser eleito presidente da Câmara dos Deputados para ironia do destino. Neste último final de semana, padre Vito esteve em Mogi das Cruzes, em visita de cortesia ao colega de batina, padre Carmine Mosca e, pela primeira vez, regressou ao País que lhe acolheu de forma solidária com o visto definitivo devolvido pelo governo federal, sob a assinatura da presidente Dilma Rousseff.

Em uma longa entrevista de mais de uma hora, o blog esteve com o sacerdote na residência paroquial na Vila São Sebastião em Mogi para conversar sobre o que motivou a expulsão por parte do governo, a batalha jurídica que enfrentou até ser deportado para a Europa e o apoio incondicional que recebeu de amigos, de parte do clero e da sociedade civil. Confira na íntegra, o depoimento de padre Vito em seis partes: a atividade pastoral, as pressões políticas, a saída de Pernambuco, o julgamento no STF, a revogação e o legado da evangelização.

Padre Vito em visita a padre Cármine em Mogi das Cruzes - Crédito: Delcimar Ferreira

Padre Vito em visita a padre Carmine em Mogi das Cruzes – Crédito: Delcimar Ferreira

Blog: O que motivou a sua vinda ao Brasil?

Padre Vito Miracapillo: Praticamente depois do Liceu decidi estudar no Seminário para a América Latina em Verona, onde fiz a teologia. E a convenção com o bispo era que a gente ficasse cinco anos na Diocese de Andria e depois viesse para o Brasil. Depois de quatro anos e meio praticamente, vim para cá passar uma temporada de três meses, de agosto a novembro de 1974. E voltei em 1975, aos 31 de outubro com o visto permanente.

 Padre Carmine Mosca: Ele estudou na mesma diocese que eu, Andria, mas nós não nos conhecíamos. Só vim conhecer ele durante uma viagem a Roma pela Jornada da Juventude, no ano 2000, quando visitei Andria e fui acolhido por padre Vito, que me contou toda sua história.

Blog: Quando o Sr. veio pela primeira vez em 1974, onde ficou?

Padre Vito: Na Diocese de Palmares, em Pernambuco porque tinha tido já uns contatos com o bispo local, sendo que havia outro padre de nossa diocese lá. Conheci o bispo de Palmares, dom Acácio Rodrigues Alves, na Itália e ele me convidou para ir na diocese dele.

 

Blog: Então o Sr. chegou a conhecer dom Helder Câmara?

Padre Vito: Sim, fomos amigos. E ele me defendeu também no processo de expulsão, me acompanhou e depois nos encontramos várias vezes na Itália

Blog: Quais suas atividades pastorais em Palmares?

Padre Vito: Era pároco em Ribeirão, uma cidade da Diocese de Palmares e era também coordenador de Pastoral Diocesano e representante do clero no Regional Nordeste.

Blog: Como foi este episódio que culminou na sua expulsão?

Padre Vito: Todo o município de Ribeirão pertencia praticamente a duas famílias de latifundiários e a uma cooperativa que agia por conta do governo. Porque tinha uma usina que faliu em 1964 e sendo que por dois anos não conseguia mais pagar os salários aos trabalhadores. Então, o governo militar estabeleceu que ao invés de pagar o que devia, fossem dadas as terras a quem tinha direito. Eram cerca de mil famílias. Sendo que as primeiras começaram a receber a terra, mas depois por conta da cooperativa que agia no território, ela deveria dar orientação técnica para trabalhar a terra por seis meses. E no começo o que o pequeno agricultor deveria dar a cooperativa era 10% da produção. Mas aconteceu que aos poucos esse retorno cresceu até 130%. Então, as famílias não conseguiam nem trabalhar a terra porque tudo o que era produzido era devolvido. Além do mais, quando cortavam a cana deixavam ela lá ficar às margens dos lotes, por uma a duas semanas, de maneira que a cana perdia peso e não pagava nem o que valia. Aos poucos, as famílias que tinham recebido a terra, sob pressão de capangas e bandidos, deixaram os lotes, sendo que não podiam nem comer mesmo tendo a terra e iam embora, às vezes, para outros estados, ou mesmo para o Sul. Na área tinham ficado, mais ou menos, umas 400 famílias.

Padre Vito deixa a cidade de Ribeirão para tristeza dos fiéis - Crédito: Arquivo Diário de Pernambuco

Padre Vito deixa a cidade de Ribeirão para tristeza dos fiéis – Crédito: Arquivo Diário de Pernambuco

Blog: Quando percebeu que a pressão política aumentaria?
Padre Vito Miracapillo: Em 1977, sendo que havia evangelização no campo, por parte da paróquia. Eles pediram para nós déssemos apoio ao direito que tinham de possuir a terra, de receber a terra por parte do governo. Era o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) que estava lá por parte do governo. A gente ficou acompanhando o pessoal, nesta reivindicação conforme a lei, sem violência, apresentando a realidade das coisas. Seja de quem sofreu pressão e foi embora da cidade, como também de quem ficou. Aí começou o problema porque os latifundiários, a cooperativa, os capangas e até o diretor do Incra, começaram a fazer pressão contra os camponeses, a paróquia e quem estivesse junto com eles.

Blog: Pressões de que tipo?
Padre Vito: Com ameaças e também enviando capangas nas reuniões. Os soldados também que iam pedir informação sobre o que o padre evangelizador tinha feito. No final, até o prefeito estava de acordo com os latifundiários. Numa noite então, havia um clima de perseguição. No 1º de maio, a gente distribuiu uma folha sobre o sentido da data para pedir direitos necessários e aquilo foi visto como subversão. Quando chegou o 7 de setembro, naquele ano tinha o lema, a Independência somos todos nós. Os organizadores da semana da pátria, fizeram o programa e depois, para o dia 7 colocaram duas missas para serem celebradas, sem pedir nada a paróquia e excluindo da programação. Quando eu recebi o programa, respondi que não podia celebrar essas missas, na forma e no horário que queriam. Mandei para o prefeito e para a Câmara Municipal. Entendi que o povo não é independente, pois estávamos sob perseguição, não era pago pelo que trabalhava, nas usinas, no campo, não é protegido em seus direitos, e está reduzido a condição de pedinte. Esta motivação foi o que fez explodir o caso porque Severino Cavalcante, que era o deputado estadual da área e estava ligado aos latifundiários, logo que viu aquela carta e pediu um dia depois na Assembleia Legislativa de Pernambuco, que eu fosse expulso do País e que a Assembleia fizesse um requerimento ao governo federal.

Blog: Isso foi em que ano?
Padre Vito: Em 1980. No dia 24 de setembro, eu fui interrogado pela polícia, na sede regional lá no Recife e então foi aberto um processo contra mim. Processo por parte do governo federal. No dia 2 de outubro, tentaram me matar porque os bispos da área decidiram fazer uma missa de solidariedade a minha pessoa e à comunidade. Já na manhã de 3 horas, os camponeses foram bater em minha porta e perguntaram: “padre, no rádio estão dizendo que não vai haver missa de solidariedade”. E eu disse que estava confirmada. Os latifundiários estavam difundindo a coisa para os camponeses não participarem. Quando eu confirmei, eles saíram pelo campo confirmando que haveria missa. Eu tinha sabido dessa intenção de me matarem na hora da missa, era 9 horas, mais ou menos.

Blog: A missa foi dentro da igreja?
Padre Vito: Fizemos na igreja para não dar motivos a tumultos. A igreja estava superlotada com padres que vieram de toda a parte do estado, algumas representações de Brasília, das Comissões de Justiça e Paz (CBJP), do Rio também. Pouco antes de começar a missa, entraram 30 pessoas armadas e quase 60 ficaram lá fora, no meio da praça, que estava também superlotada porque não cabia na igreja. E começaram a cantar o hino nacional e agredir também padres, jornalistas e pessoas que estavam próximas do altar. Eu estava na sacristia com os bispos. Uma velhinha veio chorando em uma crise de nervos até mim e disse: “Padre, está tendo uma confusão lá”. Eu saí da sacristia e vi alguns membros dos latifundiários que estavam agredindo. O meu advogado me viu, me pegou pelo braço e me disse: “Padre Vito, volte para a sacristia e fique sempre cercado por amigos porque estão querendo sequestrá-lo e matá-lo”. E então, ficamos lá. Os dois bispos com o advogado foram na praça e chamaram a polícia. A sorte é que o delegado tinha chegado só dois dias antes na cidade e não era ligado a nenhum latifundiário. Então, ele entrou com toda sua equipe para a igreja e disse para os 30: “ou vocês saem de maneira que haja a celebração da missa, senão a gente abre fogo”. Quando eles viram que também soldados que geralmente, estavam do lado deles, estavam contra naquele dia, deixaram a igreja e a gente celebrou a missa. Logo depois, soubemos por dois deputados da oposição, que tinha havido uma reunião na casa de um dos latifundiários, que já tinha matado camponeses na região, com um general do Exército. De maneira tal que se tivesse acontecido o crime, o general daria cobertura política, dizendo que o problema era eu.

Crédito: Clemilsom Campos/JC Imagem

Desde 1993, Padre Vito já retornou diversas vezes ao Brasil, mas só com o visto de turista – Crédito: Clemilsom Campos/JC Imagem

Blog: Por quanto tempo ficou sem poder entrar no Brasil?
Padre Vito Miracapillo: Até 1993, não podia entrar. Quando Itamar Franco revogou o decreto de expulsão de Figueiredo, me deram o visto de turista e de 1993 para cá tenho vindo sempre por 20 a 25 dias ao Pernambuco, continuando os contatos com o clero, com a diocese. Só que não podia ficar porque havia a condenação do Supremo (Tribunal Federal-STF). E desde 1993, deputados e amigos tentaram fazer com que a Corte formalizasse o fato que a expulsão tinha sido um problema político da ditadura, e não um crime. Mas ninguém fazia nada. Eu cheguei até a mandar uma carta para o Lula (Luiz Inácio Lula da Silva-PT) porque em 1980, éramos os dois que estávamos com processos. Ele havia processado pela ação desenvolvida com os metalúrgicos, com o sindicato, e eu que fui acusado de ter feito uma greve de 240 mil camponeses lá no Nordeste. O Lula me conhecia porque me deu solidariedade também na época. Mas nada fez. Várias vezes escrevi, liguei para a secretária dele para colocar na agenda um encontro em Brasília, mas não aconteceu nada.

Blog: Mas houve retorno por parte da Presidência, ou nem isso?
Padre Vito: Não, nada. Silêncio absoluto. Então, contatei também o Frei Betto (assessor especial da Presidência), mas também não recebi nenhuma resposta. E quando a Dilma (Rousseff) assinou o documento da Comissão da Memória e Verdade, no mesmo dia, ela assinou o visto permanente para mim. Porque teria sido uma contradição que com aquela comissão continuasse a minha condenação. Agora, nas tentativas que fizemos para receber o visto, estavam querendo que eu recebesse um novo visto.

Blog: Seria como se o Sr. estivesse chegando agora no Brasil, não é?
Padre Vito: Isso. Para dizer de qualquer jeito que o governo me favorecia. Mas eu expliquei claramente que seja pelos amigos que foram tentar a revogação, seja escrevendo cartas, que não queria favores. Queria que se restabelecesse a verdade da história. E que o governo reconhecesse que foi um ato político da ditadura e recebesse aquele visto que eu tinha e que me foi retirado. E lá nunca conseguia. Até que com a Comissão da Memória e Verdade, Dilma assinou o meu visto e o Ministério da Justiça me mandou uma nota pedindo perdão pelo ocorrido em 1980, que aquilo foi ato ilegal e arbitrário da ditadura e que revalidava o meu visto permanente. Em novembro de 2011, assinei os documentos na Polícia Federal e no começo de 2012 me deram o documento provisório e agora o definitivo.

Blog: Então agora o Sr. já conta com o visto inicial permanente?
Padre Vito: A polícia me disse no Recife que a próxima vez que eu chegar posso entrar na fila dos brasileiros e não dos estrangeiros. Já aqui em São Paulo neste final de semana, entrei pela fila dos brasileiros (risos).

Blog: O seu objetivo é voltar a atuar em Ribeirão (PE)?
Padre Vito: Eu não teria problemas, mas o bispo da Itália tem que me liberar. Não teria sentido criar uma ruptura lá para eu vir para cá. Meu desejo é que haja colaboração entre as duas dioceses, e que através do meu caso, ambas colaborem do jeito que a igreja pede hoje.

Blog: No Pernambuco ainda tem padres que pertencem a Diocese de Andria?
Padre Vito: Não porque o outro faleceu em 2000. Mas o bispo de Palmares está de acordo para que eu voltasse, como também o Arcebispo de Recife me ofereceu que entrasse na Arquidiocese.

Blog: É a primeira vez que o Sr. volta com o visto permanente?
Padre Vito: Sim.

Blog: Quando o Sr. deixou Ribeirão de certo modo, a sua presença trazia uma certa proteção para aquela comunidade. Como ficou a situação por lá?

Padre Vito Miracapillo: Quando eu fui expulso, toda a comunidade ficou de luto. Os latifundiários queriam fazer uma festa de carnaval (fora de época) pela minha expulsão, enquanto os camponeses fizeram saber ao prefeito que se houvesse carnaval alguém poderia não ver a luz do dia. Ameaçaram fazer revolta mesmo. Então, o prefeito falou com os latifundiários dizendo que não houvesse nenhuma manifestação contra mim e a favor deles. Também porque naquela missa do tumulto, os 60 que estavam do lado de fora foram cercados pelos camponeses que chegaram armados de facões. Se tivesse soltado um tiro lá na igreja, teria sido guerra naquele dia.

Blog: Mesmo sem a sua presença, a própria comunidade tomou conhecimento do papel dela e assumiu as responsabilidades?

Padre Vito: Uma base estava tomando consciência, abriu os olhos. Quando saiu a denúncia contra mim, os camponeses saíram pelo campo para pegar assinaturas em meu favor e enviar ao presidente da República dizendo que o subversivo na verdade eram os latifundiários que pisaram na vida do povo. Eles pensavam que o presidente Figueiredo reconheceria a verdade dos fatos. Quando viram que houve a minha condenação, perceberam o que era o Estado militar e a ligação entre governo e os latifundiários.

Não só fizeram luto nas casas e na igreja, mas o próprio Severino Cavalcante, fez saber pelos jornais que dobraria os votos por ter conseguido a minha expulsão. Mas por 18 anos ele ficou apagado politicamente. Não conseguiu mais se reeleger. Só depois disso é que ele conseguiu se eleger deputado federal, dizem que pela via da corrupção, até ser presidente do Congresso.

A igreja onde trabalhei era de estilo colonial mas depois de três anos desabou. Quando quiseram refazer, os latifundiários queriam contribuir, o bispo disse que não aceitava doações de latifundiários que tinham participado de minha expulsão porque padre Vito um dia voltando teria vergonha de celebrar nesta igreja. As pessoas se perguntavam o que teria acontecido. O (coronel) Viloque (conhecido como torturador da ditadura) sofreu uma paralisia depois de seis meses, o principal latifundiário da região sofreu um acidente de carro e morreu e a igreja desabou. Perguntaram que oração que eu tinha feito, se era praga de Deus. (risos). Eu não vejo por este lado. Aconteceram muitas coisas boas. O governo em 1981 teve que entregar as terras que ainda não tinha concedido desde 1964 e muitos e se tornaram agricultores e mudaram a rotina da região. Todo o trabalho de evangelização teve resultados.

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